Testeunho do Padre Gervásio Queiroga na 50º Assembléia dos Bispos

Da redação www.diocajazeiras.com.br

1. Em 1977, nos 25 anos de fundação da CNBB e inauguração da sede na capital federal, fui convocado de Cajazeiras, no Sertão paraibano, para enfeitar essas celebrações em Brasília, com o lançamento do livro-tese: CNBB – Comunhão e Corresponsabilidade.
2. Pequenino, no meio de gente tão importante, como o cardeal Lorscheider, Presidente da CNBB, D. Ivo, Secretário Geral, o Núncio, Dom Carmine Rocco, Dom Hélder Câmara, idealizador e pai da CNBB, uns sessenta Cardeais e Bispos presentes, eu me sentia como aquelas bandeirolas de papel colorido, que enfeitam as quermesses da festa da padroeira. Terminada a festa, elas desaparecem na sua insignificância, levadas pelo vento.
3. Imaginem como me sinto agora, menor ainda e menos significante, trinta e cinco anos depois, a enfeitar outra celebração jubilar da querida CNBB, agora na capital espiritual do Brasil e presente o episcopado nacional! Pedem-me para dar o testemunho de presbítero, sobre o significado e valor da CNBB e de suas Assembleias Gerais. Sou chamado a fazer em dez minutos, o que ocuparia dez dias!
4. Na verdade, acompanho, com amor curioso, a CNBB, desde sua fundação em 1952. Dois meses depois da fundação, já tive a graça de conhecer Dom Helder, que nos falou, a nós alunos do Colégio Pio Brasileiro, descerrando-nos o cenário da realidade eclesial do Brasil e descortinando os horizontes ideais do santo e profeta que ele era.
5. Mas, por que celebrar a 50ª Assembleia Geral da CNBB? Antes de tudo, porque a assembleia dos Bispos de uma nação é o núcleo originário e a realidade maior das conferências episcopais. No século XIX, quando começaram os Bispos a reunir-se, para conferir entre si a realidade de suas Igrejas particulares e sugerir soluções para as questões que lhes eram comuns, tais assembleias chamavam-se com razão conferências episcopais. Só em seguida é que vão surgindo o antes e o depois delas. Para prepará-las e para ajudar o encaminhamento das decisões tomadas, vão-se sedimentando estruturas ou órgãos auxiliares, até formar este organismo eclesial, que o Vaticano II sancionou como instituto permanente e obrigatório, do qual a assembleia geral é não só órgão máximo, mas, o splendor formae. Como diz o Estatuto (art. 27): “A Assembleia Geral, órgão supremo da CNBB, é nesta a expressão e a realização maiores do afeto colegial, da comunhão e corresponsabilidade dos Pastores da Igreja no Brasil”. Da Assembleia brota o dinamismo da conferência episcopal, a razão de ser e autoridade dos demais órgãos e funções dirigentes. Reuni-la pela quinquagésima vez, no decurso de seus sessenta anos, num país como o Brasil, é deveras um fato digno de comemoração.
6. O episcopado é o sacramento da presença atuante de Cristo no meio de seu povo. Assim diz Lumen Gentium: “É nos Bispos, assistidos pelos presbíteros, que o Senhor Jesus Cristo, Sumo Pontífice, está presente no meio dos fiéis. Sentado à direita de Deus Pai, está presente na assembleia de seus pontífices, [mas, sobretudo pelo exímio serviço deles, prega a todas as gentes a palavra de Deus e continuamente administra os sacramentos das fé a todos os fiéis”]… (LG 21). Foi nesta fé teologal que vivi os eventos quase sacramentais das Assembleias Gerais da CNBB. A partir de 1983, tive a graça de assistir e servir integralmente a vinte e três Assembleias, esta sendo a vigésima quarta. Minha fé católica e consagração presbiteral receberam delas sempre alimento, firmeza e vigor. Nas grandes graças da minha vida quase octogenária, conto entre as maiores a de ter convivido e humildemente colaborado com os Pastores da Igreja, nas Assembleias da CNBB.
7. Como achava bonito ver nossos bispos a rezar, nas celebrações litúrgicas vivamente participadas, ou na prece pessoal, silenciosa e até oculta, na escuridão da noite, junto ao sacrário; vê-los participar com fidelidade exemplar nos longos plenários, nos grupos de trabalho ou nas comissões, varando às vezes noites e madrugadas; nos barulhos do refeitório, ou nos baralhos da sala de televisão, nas filas dos médicos, ou consultando os assessores; nos cochichos dos corredores, Deus sabe tratando de que ou falando de quem! Como era belo sentir a alegria do encontro na chegada, contemplar a humildade e pobreza de tantos, compartilhando com outros o quarto apertado, perceber o espírito de fé e sacrifício dos já envelhecidos ou mortificados pela doença; alguns até, vindo exatamente para a última despedida, conscientes da iminente partida definitiva!
8. A história das Assembleias Gerais é a história da CNBB, núcleo histórico da Igreja no Brasil. É história do próprio Brasil. Que aconteceu de sério e de grande na Igreja, na América, com o povo brasileiro, que não ressoou nas Assembleias da CNBB, que não deu vida a um documento ou declaração, alguns de grande audácia, no clima tempestuoso da nação? A CNBB viveu sempre em suas Assembleias, o que diz Gaudium et Spes no seu início: “As alegrias e esperanças, as tristezas e angústia dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e dos aflitos, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústia dos discípulos de Cristo e nada se encontra de verdadeiramente humano que não ressoe no coração destes” (GS 1).
9. É próprio da CNBB, desde o início, não separar o que Deus uniu, a saber: fé e vida, o Evangelho e sua incidência na realidade secular. Vale a pena percorrer as pautas sobrecarregadas das cinquenta Assembleias. Cada uma delas foi o fórum onde repercutiu a vida do povo: sua dinâmica eclesial, sua trágica realidade social. [Não posso esquecer o impacto do assassinato do padre Josimo, de Tocantinópolis, na Assembleia Geral de 1986, ou a comoção provocada pela chacina de Eldorado dos Carajás, na Assembleia de 1996.
10. Não se compreendem as Assembleias Gerais e sua importância, sem colocá-las na moldura do episcopado da época e na composição então dos órgãos dirigentes da CNBB. É preciso ainda ter em conta as grandes tensões ideológicas vividas na Igreja, já no pontificado de Pio XII, com os movimentos de renovação eclesial que prepararam o Vaticano II, as divergências no Concílio e no tormentoso e fecundo pós-Concílio. Coincide este tempo com a tumultuosa situação sócio-política do Brasil, que culminou com a ruptura do processo democrático e a instalação da longa ditadura militar, com episódios de forte repressão também contra membros do episcopado, do clero e do laicato eclesial. Somente nesse contexto é que se entendem os momentos críticos e os impasses vividos nas Assembleias Gerais; mas também, suas corajosas decisões, os documentos e declarações delas emanados, as intervenções claras ou veladas da Santa Sé.
11. Os diversos períodos da vida da CNBB determinam também a qualidade e eficácia das Assembleias Gerais. Além dos doze anos iniciais, em que foi central e decisiva a pessoa de D. Helder, vale ressaltar os períodos em que a eficiência e o estilo da CNBB foram marcados pelas personalidades de Dom Aloísio Lorscheider e D. Ivo Lorscheiter, pelo carisma de Dom Luciano Mendes de Almeida. Cada um, depois de terem sido Secretários Gerais, foram Presidentes por oito anos. Esta longa época coincide com o pós-Concílio, com Medellin, Puebla e Santo Domingos, com os momentos mais expressivos e repressivos do regime militar, com a restauração democrática e nova Constituição Federal. Não devo aludir aos períodos recentes da CNBB, já que, com a exceção de D. Lucas, seus Presidentes e Secretários Gerais, graças a Deus, ainda estão bem vivos e atuantes na Igreja.
12. As Assembleias em que as tensões ideológicas às vezes atingiam o clímax eram aquelas das eleições dos órgãos dirigentes, particularmente a Presidência e a CEP, juntamente com a aprovação das Diretrizes pastorais quadrienais. Nos anos dos governos militares, tais eleições tinham espaço privilegiado na grande midia, com ampla cobertura e às vezes manobras sujas da imprensa, com a intenção de influenciar no seu resultado. Não se pode esquecer que alguns Bispos julgavam ser dever de consciência ajudar os colegas na escolha dos dirigentes da CNBB. Daí, apesar de proibidas, surgiam as famosas listas de candidatos, às vezes colocadas por debaixo das portas dos quartos, na calada da noite.
13. Grandes passos foram dados pela Igreja do Brasil, graças às Assembleias Gerais. Basta lembrar aqui – e faz exatos cinquenta anos – a pastoral de conjunto, com o Plano de Emergência, aprovado na 5ª Assembleia, em abril de 1962, dando início a uma sequência não interrompida de Diretrizes Pastorais, que tanto enriquecem e honram a CNBB. Muitos documentos das Assembleias foram notáveis, pelo conteúdo teológico, pastoral, jurídico, ético-social e, pela repercussão que tiveram. Eles fizeram história e são parte preciosa de nosso patrimônio eclesial.
14. Seria injusto se eu não lembrasse aqui tantos assessores, eles e elas, os atuais e os do passado, alguns sendo agora membros ilustres da CNBB, da qual eram servidores. Foram ou são os bons operários da vinha, carregando o peso do dia e do calor; algumas vezes, reconhecidos; outras vezes, desconhecidos ou injustiçados e até feitos “bodes expiatórios”. Sempre me perguntei, se as Assembleias Gerais poderiam acontecer, com a dinâmica e eficácia que têm, sem estes servidores. Pode-se também pensar as Assembleias, sem os queridos funcionários e funcionárias da CNBB, tão dedicados, competentes e gentis?
15. Finalmente, as Assembleias Gerais são marcadas pelos lugares em que aconteceram. Nossa história religiosa está para sempre ligada àquele lugar paradisíaco, recanto mimoso de reflexão e oração, a Vila Kostka, em Itaici.
16. A águia constrói agora o seu ninho, junto ao santuário nacional da Padroeira. A Senhora Aparecida, com sua bênção maternal, faça a CNBB, em suas Assembleias Gerais, cada vez mais esplêndida e eficaz, a serviço do povo brasileiro.
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Publicado em 14 de maio de 2012, em CNBB e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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