O Nascimento de Jesus

Fonte: Capítulo V, de A vida de Cristo, Quadrante, São Paulo, 2000.
Tradução: Ruy Belo

presepioUm albergue pobre, desmantelado e cheio de teias de aranha, foi o primeiro palácio de Jesus na terra; um presépio sujo, seu primeiro berço. Mais tarde, o mundo há de venerar a gruta onde acaba de ocorrer aquele nascimento prodigioso.

Como bom administrador, Augusto tinha a paixão das estatísticas. Suetônio diz-nos que, ao morrer, deixou escrito pelo próprio punho um breviário de todo o seu Império, quer dizer, um caderno “onde figuravam os nomes dos cidadãos, as riquezas de cada uma das províncias, a lista dos aliados que deviam contribuir para engrossar os exércitos, o estado dos tributos e das rendas e o rol das somas gastas em coisas necessárias e em liberalidades”. São dados tão escrupulosos e pormenorizados que só os pôde ter obtido à força de freqüentes cadastros, inscrições e recenseamentos, e de uma burocracia rigidamente organizada.

Graças a uns papiros recentemente descobertos no Egito, conhecemos as formulas empregadas para anunciar estes recenseamentos. Um dos governadores, chamado Víbio Máximo, anunciava deste modo ao país uma daquelas medidas destinadas a apurar o censo da população: “Como vai começar a inscrição por casas, é necessário que todos os que, por qualquer razão, estiverem ausentes do lar pátrio a ele voltem para realizarem as formalidades necessárias”.

É a um decreto dessa natureza que o Evangelho de Lucas alude nestas palavras: Ora aconteceu que, naqueles dias, saiu um edito de César Augusto mandando que toda a gente se recenseasse. Este primeiro censo foi feito por Sulpício Quirino, governador da Síria. E todos iam recensear-se, cada um à sua cidade. O governador a que o texto sagrado se refere não é um desconhecido. Nos Anais de Tácito, fala-se do seu valor guerreiro, dos inestimáveis serviços prestados ao Império, do seu consulado sub divo Augusto, no ano 12 antes da nossa era, dos seus feitos belicosos na Cilícia, do seu governo na Armênia e da sua designação para o cargo de confiança de preceptor de Gaio César, sobrinho do imperador. Uma inscrição vem dar os últimos retoques na sua historia: diz-nos ela que foi duas vezes governador da Síria. Tínhamos conhecimento de uma, quando da morte de Arquelau, no ano 6 da nova era, e sabemos também, através de Flávio Josefo, que, durante esse mandato, Quirino mandou organizar um censo da população; não é desta, porém, que fala Lucas, mas de uma outra anterior, quando andava ocupado a vingar, na Cilícia, a morte do rei Amintas e esmagava os rebeldes homônades que tinham ousado enfrentar o poder de Roma. Este fato não pode fixar-se com toda a precisão, mas deu-se indubitavelmente entre o ano 9 e o ano 6 antes de Cristo.

Uma afirmação de Tertuliano vem trazer-nos luz nova sobre este ponto. O grande escritor africano, excelente jurista e bom conhecedor dos documentos anagráficos romanos, apoiando-se não já no Evangelho de Lucas, mas num texto oficial do Império, atribui este censo do nascimento de Cristo ao legado Cêncio Saturnino. Ora, sabemos que o mandato de Cêncio Saturnino na Síria foi exercido desde o ano 8 até ao ano 6 antes de Cristo. Isto, que à primeira vista parece uma contradição, vem confirmar a afirmação do evangelista. Os dois textos completam-se, obrigando-nos a supor, ou que Cêncio Saturnino terminou na Judéia o que Cirino começara no resto da sua província, ou, o que é mais provável, que Saturnino atuava a título de colaborador de Cirino, ocupado na campanha contra os rebeldes da Cilícia, que pertencia também à província da Síria.

A CAMINHO DE BELÉM

Na Palestina, tal como no Egito, as formalidades do censo exigiam que os que tinham de se inscrever se deslocassem ao lugar de origem, coisa sumamente fácil para um oriental, que não esquece assim na primeira ocasião as particularidades geográficas e demográficas que condicionaram a vida dos seus antepassados. Descendente da casa de Davi, José viu-se obrigado a abandonar a sua aldeia de Nazaré para se inscrever com Maria nos registros da cidade de Davi: Belém.

Um caminho de trinta léguas separava as duas povoações, um caminho que os pedestres demoram três ou quatro dias a percorrer. Atravessaram primeiro a planície de Esdrelon, saturada de recordações bíblicas e salpicada de lugarejos tranqüilos e calmos. Depois de Sulam, onde os peregrinos surpreenderiam com emoção ecos do Cântico dos Cânticos, apareciam os montes da Samaria, o Ebal e o Garizim, montes sagrados noutros tempos e ainda hoje redutos de cismas e rancores. Na boca de um vale profundo e estreito, à beira do caminho, detiveram-se a provar a água da fonte de Jacó, e pouco depois saudavam José, filho de Jacó, ao passarem pelo seu túmulo. Divisaram o templo de Herodes, ainda por acabar, mas já resplandecente de ouro e de mármores, ladearam as torres de Sião, e, um pouco mais tarde, pisavam já os campos betlemitas, onde mil anos atrás apascentara ovelhas o mais famoso dos seus antepassados.

A CIDADE DE DAVI

Se Nazaré era uma aldeia desconhecida dos autores da antiga literatura hebraica, Belém, pelo contrário, tinha uma história brilhante. Quando os israelitas assentaram arraiais na Terra Santa, o nome cananeu de Beth-Lahamu, “casa do deus Lahamu”, foi substituído pelo de Beth-lehem. Também se lhe chamou Efratá, sobrenome de uma das principais famílias que nela se fixaram e que se tornou famosa graças ao ramo de Jessé, pai de Davi. Era uma cidade pequena, e como tal a considerava o profeta Miquéias no século VIII, mas as caravanas que passavam do Egito para Jerusalém davam-lhe certa vida. Um tal Camaam, filho de um contemporâneo de Davi, construíra ali uma pousada que, no tempo de Jeremias e talvez no tempo de Jesus, continuava a chamar-se o khan ou geruth – hospedaria – de Camaam.

Jerusalém e Belém distam uma da outra apenas duas horas, mas fazem parte de regiões geograficamente distintas. Ao deixar o planalto que as separa, a paisagem modifica-se bruscamente; é outro o ambiente, outro o clima, outro o curso das águas. É o vale que se estende em melodiosa policromia até à meseta situada sobre o Jordão; campos de trabalho, áridas planuras, terraplenos onde crescem oliveiras centenárias, depressões de uma beleza deslumbrante, defendidas do vento pelas montanhas do Oeste, onde os pastores têm os abrigos, e, ao centro, uma feraz terra de semeadura, que deu o nome á histórica povoação de Beth-lehem, que quer dizer, “casa do pão”.

Com a alma sacudida pela emoção e pela nostalgia, os dois esposos de Nazaré‚ atravessaram aqueles lugares, onde cada arroio, cada pedra lhes trazia à memória algum acontecimento da história do povo de Deus, intimamente relacionado com a história da sua família: o campo que outrora pertencera ao domínio de Booz, os restolhos onde podiam adivinhar-se as pegadas de Ruth, a ceifeira; o bosque no interior do qual Davi se encontrara com o leão. Subiram a colina branca e suave que levava às primeiras casas e, no momento em que agonizava a tarde, detiveram-se diante do khan, um edifício restaurado através dos séculos, rodeado de pórticos, com um grande pátio central, onde se amontoavam as cavalgaduras.

Toda a gente gritava, corria ligeira dum lado para o outro, cumprimentava-se em alta voz, cantava, brincava, gesticulava. Alguns maldiriam os caprichos do César e barafustariam contra aquela disposição que lhes impunha todas as espécies de privações, incômodos, despesas e exações: a aspereza dos caminhos, a falta de comodidade das pousadas, o trato desdenhoso dos empregados, a preocupação de conseguir alojamento em terras onde talvez tivessem tido um ascendente ilustre, mas onde agora eram inteiramente desconhecidos.

A PROCURA DE POUSADA

José estava neste caso. Abriu caminho entre a multidão, prevendo já uma recepção desagradável. O que mais lhe pesava talvez não fosse não encontrar casa para passar a noite, mas o receio de não conseguir um canto onde estivessem sós. Lucas diz-nos que José levava consigo Maria, sua esposa, que estava grávida. Na realidade, ela não tinha obrigação de ir, uma vez que não era abrangida pela lei; mas era impossível deixá-la só naquele estado. Aliás não é improvável que, dadas as circunstâncias prodigiosas da concepção, o casal tivesse resolvido estabelecer-se no lugar de origem da linhagem de Davi já que, segundo o anjo Gabriel, Deus daria ao fruto que esperavam o trono de seu pai Davi.

Por outro lado, não seria de admirar que o filho que Maria concebera de uma forma tão insólita também de nascer de uma maneira maravilhosa, e era doloroso pensar que não pudessem subtrair o mistério aos olhares da gente curiosa. É isto que se depreende da expressão de Lucas. O evangelista não diz simplesmente que não havia lugar na pousada, mas que não havia lugar “para eles”, alusão manifesta às exigências especiais provocadas pelo parto iminente de Maria.

Os receios de José converteram-se em realidade: várias vezes lhe disseram e repisaram “que não havia lugar para eles na pousada” – um lugar recolhido, decoroso, solitário. Insistiu, suplicou, mas tudo foi em vão.

A GRUTA

Indicaram-lhe, perto dali, aberta na montanha calcárea, uma espécie de gruta que servia de curral. A única mobília era uma manjedoura suspensa da parede ou assente no chão, para deitar a ração dos animais. Eis o ref£gio que os dois aldeãos de Nazar‚ conseguiram encontrar na penosa viagem.

E aconteceu que, enquanto estavam ali, se cumpriram os dias em que Maria devia dar à luz. E deu à luz o filho primogênito e, envolvendo-o em panos, reclinou-o na manjedoura. Lucas só fala do presépio, mas o presépio exige o estábulo, e o estábulo, de acordo com os costumes do tempo, supõe uma gruta, uma pequena caverna, aberta numa colina próxima do povoado.

Um albergue pobre, desmantelado e cheio de teias de aranha, foi o primeiro palácio de Jesus na terra; um presépio sujo, seu primeiro berço; um burro e um boi, segundo a velha tradição – visto que o Evangelho nada nos refere a esse respeito –, os que lhe deram o calor do seu bafo naquela noite fria. Maria, que nenhumas dores sentira ao dá-lo à luz, estava em condições de lhe prodigalizar pessoalmente os primeiros cuidados. É um pormenor que o evangelista não quer omitir, para nos dar a entender que, se foi concebido milagrosamente, mais milagrosamente nasceu. “Jesus – diz São Jerônimo – desprendeu-se da mãe como o fruto maduro se separa do ramo que lhe comunicou a seiva, sem esforço, sem angústia, sem esgotamento”. E noutro lugar diz: “Não houve ali auxílio algum de outra mulher, como logo julgaram os evangelistas apócrifos. Foi Maria quem envolveu o Menino em panos. Ipsa mater et obstetrix fuit: a própria mãe foi a parteira”. Não fora despropositada a preocupação de procurar um lugar solitário e tranqüilo.

Mais tarde, o mundo há de venerar a gruta onde acaba de ocorrer aquele nascimento prodigioso. Mas volvido um século, já um escritor nascido naquela terra da Palestina, São Justino, nos falará dela com respeito, e algum tempo depois o grande Orígenes afirmará que até os próprios pagãos conheciam a cova em que tinha nascido um tal Jesus, adorado pelos nazarenos. Depois, os reis da terra hão de adorná-la de ouro, prata e tecidos preciosos; apear-se-ão da sua grandeza para limpar aquele chão que, ainda hoje, a toda a hora, milhares e milhares de peregrinos beijam com lágrimas de amor e gratidão. Junto de outras covas ou grutas naturais que também serviram ou servem ainda de estábulo, a cova milagrosa, que foi o primeiro refúgio de Deus quando veio à terra, continua a atrair a toda a hora multidões piedosas e comovidas.

OS PASTORES

Nos nossos dias, a colina ressoa com o rumor surdo daquele formigueiro de gente; naquela altura, ninguém sabia que acabava de ter lugar ali o maior acontecimento da História. Foi o céu que teve de recorrer a novo prodígio para o revelar. A oriente de Belém, a caminho do Mar Morto, estende-se a planície verde onde nesse tempo ficava a célebre torre do rebanho, junto da qual Jacó armara a sua tenda para chorar a amada Raquel. Uma igreja, escondida entre oliveiras, assinala o lugar onde se abriram as nuvens para permitir que uma nova luz se visse: Naquela noite, um grupo de pastores – diz-nos Lucas – guardava o gado e velava. Eis que um anjo do Senhor lhes apareceu e, envolvendo-os num resplendor celeste, os deixou cheios de um santo temor.

Do outro lado de Belém, estendia-se um vasto ermo, terra inculta e abandonada, por onde erravam numerosos rebanhos guardados pelos respectivos pastores, quer no inverno quer no verão, de dia ou de noite. Embora mal vistos pelos doutores de Israel, já que bastante pouca importância davam aos seus ensinamentos sobre abluções, dízimos, alimentos impuros e a observância do sábado, esses pastores eram os continuadores dos patriarcas bíblicos. Levavam a mesma vida que eles e, tal como eles, contemplavam todas as noites o céu coalhado de estrelas, negro, profundo, aveludado. Os seus atuais descendentes continuam a levar os rebanhos sem rumo fixo por aqueles ermos e planícies, e são designados por um nome que significa: “os que vivem ao relento”. Nômades, livres, de uma liberdade adquirida à força de fadigas, privações e desprezos, conservam melhor que os habitantes das cidades a fé simples, a piedade sincera e as antigas tradições de Israel.

A aparição do anjo, que veio interromper a conversa noturna em torno da fogueira, encheu-os de espanto. Um israelita não podia ver um raio de glória caído do céu sem o associar à recordação dos raios de Javé, portadores de morte. Mas o anjo os tranqüilizou:

– Não temais. Anuncio-vos uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade da Davi um Salvador que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos, deitado numa manjedoura.

O CÂNTICO DA PAZ

A noticia não deixava de ser estranha: o Messias que Israel aguardava, o descendente de Davi, o restaurador do seu trono jazia recostado no feno duma caverna. “Tirai-me esses panos vergonhosos e essa manjedoura, indignos do Deus que adoro” – dirá Marcião, um dos primeiros hereges. E Tertuliano lhe responderá: “Nada mais digno de Deus que salvar o homem espezinhando as grandezas transitórias, julgando-as indignas de si e dos homens”.

Não era aos poderosos da terra, não era aos doutores do templo que a mensagem se dirigia, mas aos pobres pastores do deserto, gente desprezível e suspeita aos olhos dos escribas, que os excluíam dos tribunais e recusavam o seu depoimento nos julgamentos, e tinham inventado este provérbio depreciativo: “Não deixes que o teu filho seja guardador de burros, condutor de camelos, bufarinheiro ou pastor, que são ofícios de ladrões”. Como seria possível submeter essa gente ambulante, que acima de tudo precisava pensar em viver, às mil prescrições que complicavam a Lei? Mas a vida de Cristo aparece impregnada, logo desde o início, de uma profunda ironia contra os sábios e poderosos. Quando começar a sua atividade missionária, dará como sinal da sua missão divina a evangelização dos pobres. E eis que, mal acabado de nascer, já os pobres são evangelizados. E os pobres compreenderam e acreditaram: acreditaram que o Messias havia nascido.

Logo repararam que o mensageiro não estava só: rodeava-o um coro de espíritos resplandecentes cantando o hino cujo eco ressoa em todas as igrejas do mundo:Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! Era essa a boa nova prodigiosa: a paz. Cristo quis nascer num momento assinalado pela paz que as vinte e cinco legiões de Roma mantinham em todas as fronteiras. Mas a paz que Ele trazia era muito mais funda e duradoura. Era a paz que unia o homem com Deus, que havia de tornar felizes as almas que, pelos seus atos, se tornassem dignas do beneplácito divino. A¡ temos a tradução exata do termo que Lucas usa: “Paz na terra aos homens por Ele amados”.

Maravilhados por este concerto misterioso, olhavam para o alto e, quando os últimos ecos se perderam na distância, puseram-se a caminho, decididos: Vamos a Belém e vejamos este prodígio que o Senhor nos anuncia. Esta cena segue-se imediatamente ao relato do nascimento de Jesus, e o evangelista junta-as sem dúvida para nos dar a entender que entre os dois fatos não decorreu uma hora sequer. Por isso a tradição supôs com razão que o nascimento de Jesus teve lugar de noite, tal como a aparição aos pastores.

A MÃE

Aqueles adoradores noturnos foram os primeiros peregrinos dos milhões e milhões que, através dos séculos, haviam de transpor os umbrais do pequeno portal de Belém. E adoraram o Menino entre transportes de júbilo, e felicitaram a Mãe, e ofereceram-lhe os seus presentes, perfumados de campo e de fé, e regressaram louvando e glorificando a Deus por todas as coisas que haviam visto e ouvido conforme lhes fora anunciado.

E, no meio daquele ingênuo alvoroço, enquanto eles repetiam amiúde o seu relato de luzes, de anjos e de músicas, enchendo de admiração todos os que os escutavam, a Mãe de Jesus calava-se, sorridente, sem dúvida, e agradecida por aquelas homenagens. Maria conservava todas estas coisas e meditava-as no coração até ao dia em que as conta a Lucas, o seu pintor, o seu evangelista, que nesta frase nos oferece uma alusão delicada à fonte da sua informação. Porque foi Ela, certamente, que lhe deu a conhecer este relato, sóbrio e terno ao mesmo tempo, em que se descobrem o cunho da Virgem e o coração da Mãe.

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Publicado em 24 de dezembro de 2013, em REFLEXÕES e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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