Arquivos do Blog

Reflexão do Evangelho do 2º Domingo da Páscoa (João 20,19-31)

2 dom Foto Sao Tome 2O SOPRO QUE REVITALIZA

Durante o tempo pascal, ouvimos o relato de várias manifestações de Jesus ressuscitado. Com suas aparições, o Mestre quer dar aos seus discípulos, ainda medrosos e inseguros, a certeza de que ele não permanece sob a pedra sepulcral, mas se encontra bem presente na vida das comunidades.

Reunidos por medo e buscando certa segurança trancando as portas, os discípulos recebem a visita inesperada de Jesus, que lhes deseja o dom da paz e sopra sobre a comunidade o Espírito de vida e esperança. As aparições de Jesus têm como objetivo alimentar a fé e provocar a transformação dos apóstolos medrosos em homens e mulheres corajosos e testemunhas da ressurreição.

Com a presença e o sopro do Ressuscitado, é possível abrir as portas e partir com otimismo e sem medo para a missão. Com ele somos capazes de compartilhar os valores do evangelho: o amor, a paz, a solidariedade e a justiça.

O Vaticano II, que completou cinquenta anos, promoveu a abertura de portas e janelas para que o sopro de Deus entrasse novamente na Igreja e a transformasse numa comunidade dinâmica, viva, aberta, presente no mundo e comprometida com o projeto de Jesus. Nada de portas e janelas trancadas! A Igreja é a “advogada da justiça e a defensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas, que clamam ao céu” (DAp 395).

Como diz o papa Francisco, nada de medo e encurralamento, é preciso ir às periferias de nossas cidades e proclamar o amor e a misericórdia de Deus. “As paróquias, as escolas, as instituições são para sair. Se não o fizerem, tornam-se uma ONG, e a Igreja não pode ser uma ONG”. Nada de se encastelar em sacristias confortáveis nem de ficar sentados em cátedras macias. A Igreja não pode mofar, enclausurada entre quatro paredes com portas e janelas fechadas.

Pe. Nilo Luza, ssp

Leia o resto deste post

Reflexão do Evangelho do 4º domingo da Quaresma (Jo 9,1.6-9.13-17.34-38)

jesus e o cegoCRISTO, LUZ DA HUMANIDADE

Como a água, a luz tem um significado forte na liturgia. Luz é sinal de vida, de alegria, ela dissipa as trevas da noite, é símbolo da própria presença de Cristo. O relato do evangelho de hoje tem também forte conotação batismal: o gesto de Jesus de fazer lama com a saliva e colocá-la nos olhos do cego lembra a criação do homem do barro e a unção com o óleo, e o lavar-se na piscina simboliza a água com a qual sebatiza. O relato não deve ser tomado como “milagre”, mas é um “sinal” – como o próprio evangelista o define – que faz um apelo à fé em Cristo e aponta para as exigências do reino de Deus.

Neste relato, temos dupla progressão: a do cego, que passa das trevas à luz, e a das autoridades, que se deixam envolver cada vez mais pelas trevas. A iluminação do cego é progressiva: para ele Jesus é um homem (v. 11), é um profeta (v. 17), procede de Deus (v. 33) e é Senhor (v. 38). Em contrapartida, a cegueira progressiva das autoridades, que resistem a compreender e não querem ver: estão divididas, mostram-se cheias de certezas, recorrem ao insulto e, por fim, à expulsão.

O texto descreve o caminho interior que toda pessoa pode trilhar até encontrar-se com Jesus, luz do mundo, e – após ser iluminada por ele – se comprometer com seu projeto. O caminho se iniciou com a cura física; depois, aos poucos, o “cego curado” vai aderindo a Jesus.

Diz o ditado que “o pior cego é aquele que não quer ver”: este, nem um milagre consegue transformar. Curar o cego foi relativamente fácil para Jesus; o mais difícil é curar as autoridades que dizem ver bem, mas continuam obstinadas na sua cegueira e hipocrisia. Difícil é mudar a visão daqueles que têm solução para todos os problemas, que privilegiam o “código” em detrimento da vida, que detêm o monopólio da verdade, que utilizam seu saber para manipular e seu poder para desprezar sempre mais os grupos discriminados.

Pe. Nilo Luza, ssp

Reflexão do Evangelho do 2º Domingo da Quaresma (Mateus 17,1-9)

transfiguracaoTRANSFIGURAR-NOS PARA TRANSFORMAR

O segundo domingo da Quaresma, nos três ciclos litúrgicos (A, B, C), celebra a Transfiguração do Senhor. Jesus, o novo Moisés, sobe à montanha – lugar da manifestação de Deus e do encontro com ele – na companhia de três dos seus discípulos mais próximos e, diante deles, se transforma e revela sua glória, an­tecipação da ressurreição.

Em face dessa cena, os discípulos ficam deslumbrados e Pedro exclama: É bom ficarmos aqui. A “glória da ressurreição” encanta; antes disso, porém, Jesus passa pela cruz, a qual assusta e não encanta nem um pouco, a ponto de sempre querermos afastá-la de nossa mente e de nossa realidade. Passando pela cruz, Jesus se transformará num corpo glorioso.

Logo os discípulos ouvem uma voz: “Este é meu Filho amado… Escutai-o”. Ao ouvir isso, assustam-se, pois ainda não entendem que o Cristo glorioso é também, e antes de tudo, o servo sofredor que passará pela morte antes da glória definitiva. Mateus revela Jesus como o “Filho de Deus” em três momentos: no início (3,17), no meio (17,5) e no fim (27,54) do seu evangelho. Ouvir o que Jesus diz é necessário. O Mestre sempre tem algo de novo a ensinar. Ele, mestre itinerante, convida seus discípulos a acompanhá-lo na trajetória que desembocará no vislumbre da glória permanente e definitiva.

A transfiguração nos põe diante do destino glorioso ao qual somos chamados. Nesse caminho não podemos nos amedrontar nem fugir da missão a nós confiada; cabe-nos, sim, seguir sempre atentos o Mestre, cujos apelos nos chegam no cotidiano da existência. Com sua palavra iluminamos e fortalecemos nossa vida, identificando-nos sempre mais com ele.

A humanidade e o mundo necessitam de transformação, para que voltem a ser o que eram desde o princípio, quando Deus viu que “tudo era bom”. Crendo na transfiguração de Jesus, cremos também na possibilidade de sermos transformados em nossa mente e em nossa ação. Se tudo no mundo está em constante mudança, podemos também nos transfigurar para transformar a realidade que nos cerca.

Pe. Nilo Luza, ssp

Reflexão do Evangelho do 7º Domingo do Tempo Comum (Mt 5,38-48)

O AMOR NOS IDENTIFICA

jesusO texto do evangelho, que integra o sermão da montanha de Mateus, põe-nos diante de duas propostas revolucionárias de Cristo: a resistência não violenta e o amor sem limites.

A “lei do talião” descrita no Primeiro Testamento representou um avanço ou um freio contra a violência sem limites, mas Jesus quer superar isto que pode ser chamado de “círculo violento”. O “porém” de Jesus não sinaliza submissão aos tiranos ou aos que nos violentam. O ódio, a violência, a vingança provocam uma espiral que só pode ser vencida por atitudes não violentas. Sabemos que resposta violenta à violência só faz aumentá-la. Combater o mal com violência é se colocar do lado do mal. A proposta de Jesus não conduz ao dilema entre resistir ou não, mas consiste em como resistir ao mal. Seu ensinamento é “resistência não violenta”: resistência sim, violência não.

Em vez de “amar o próximo e odiar o inimigo”, Jesus propõe amar a ambos. Ele nos ensina que não podemos dedicar nosso amor somente ao próximo, a quem nos agrada e com quem simpatizamos, mas cumpre-nos estendê-lo também ao inimigo. Em outras palavras, nosso amor não deve ter limites. O Mestre nos pede realmente algo muito difícil de assumir. Mas ele mesmo nos diz que, se agimos como os outros, não fazemos a diferença, e fazer a diferença é algo característico do verdadeiro cristão.

Entre os ensinamentos do sermão da montanha, essa talvez seja uma das propostas mais difíceis de viver e a que mais identifica o discípulo de Jesus. Ao longo da história da humanidade, muitas foram as personagens que procuraram encarná-la: Gandhi, Helder Câmara, Paulo Evaristo Arns, Zilda Arns… Mediante a não violência e o amor, vivendo nossa vocação ao “extraordinário”, demonstraremos que somos de fato cristãos. Esta nossa identidade nos impele a ser promotores da cultura da paz e da concórdia.

Pe. Nilo Luza, ssp